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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Política em Verso (23) - Zezão - 05-06-1924.

Na Rua da Boa Vista
Da Braga Augusta e Leal
Foi presa uma jornalista,
De nome Antónia Barbosa,
Diz de lá certo jornal.

Mas porquê? Qual o delito
Que a Barbosa cometeu?
É o que ainda não está dito,
Mas que o leitor vai saber
Porque essa lho juro eu.

Talvez abuso d’ imprensa
Da cantada Liberdade!
O leitor consigo pensa…
Mas labora num equívoco
Que não é essa a verdade!

Por outro crime foi presa,
É crime que brada aos céus,
Qual doutro a história não reza
De colegas jornalistas:
Por ser ladra de chapéus!

Mas o colega citado
Sem que o caso lho mereça
Mostra-se todo espantado
Por, quando ela foi presa,
Ter os chapéus na cabeça!
Há por aí cada maduro!
Pois, então, qual o lugar,
O mais próprio e o mais seguro,
Para o penante ou palhinhas
A gente escarrapachar?

Eu creio ser a cabeça…
E o colega bracarense
Com um teimoso tropeça
Pois de que seja outro o sítio
A mim nunca me convence.

Porque todo o chapéu tendo
O formato circular,
Já o leitor está vendo
Que, exclusivo, a cabeça
Só se ele pôde ajustar.

E mesmo, amigo leitor,
Por causa da segurança
Etcetera, sim senhor!
Aliás sempre a cair
Andava na eterna dança.

Se em outra parte o pusesse
- Mas que fosse circular –
Aquele que o trouxesse,
Só segurá-lo podia
Com um … prego de caibrar.
Zezão

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Política em Verso (22) - Zezão - 08-05-1924.

Diz um certo jornalista
Que escreve da Lisboa bela
Para um jornal da invicta,
Que o governo está na pista
Duma fita bolchevista
E tem medo que se pela!

Que, por isso prevenido,
Já fez ir para Lisboa
Muitas tropas da província,
Arreganhando atrevido
A dentuça e pondo o ouvido
À escuta… Esta é bem boa!

É que isso lhe faz lembrar,
O meu leitor não se ria,
Certos rapazes que soem
O inimigo ameaçar:
- «Deixa! Tu hás-de passar
À porta da minha tia!...»
O que isto dá a entender
É que o dito jornalista,
Há tempos, aqui p’ra traz,
Também usava fazer
O que o seu olho está a ver
No governo alvarista.

Devia ser mais discreto
O tal do camaroeiro!
Assim ‘stragou o repolho,
Deixou de ser justo e recto…
Porque não calou o peito,
Seu … Homem… do soalheiro?

E daí, talvez, tivesse
Muitos carros de razão,
Que, se a cousa avante fosse,
Se a revolução se desse,
Talvez, por lá, não houvesse
O necessário sabão…

Pois o medo tal seria
Nos lisboetas papoulas
Que logo que ela estalasse,
Todo o mundo fugiria…
E quem é que o pagaria
Se não os pobres ceroulas?
Zezão

sábado, 13 de junho de 2009

Política em Verso (21) - Zezão - 24-01-1924.

Perguntou-me o Director
da nossa «Acção Social»
O motivo ou a razão
Ou seja lá o que for
Do meu silêncio: – Então
Que tem você, seu Zezão!...

Por vergonha não lhe disse
O que cá dentro sentia
E procurei-lhe ocultar
A minha grande perrice,
E um sorrisinho alvar
Que me fica a matar!

Mas a ti, leitor amigo,
Se me prometes segredo,
Vou- te abrir o coração
E tu vais chamar um figo
A bela da explicação,
Do silêncio do Zezão!

Se na semana passada
Nada escrevi para o jornal
Foi por estar constantemente
À espera da consoada
Do meu leitor, afinal,
Deu em droga, deu em nada.
Ao ouvir bater a porta,
P’ra lá deitava a correr,
Mas por mal dos meus pecados,
Ficava co’a cara torta,
Pois sempre via aparecer
Alguns credores irritados.

Sempre à espera – que arrelia!
Sem noutra cousa pensar,
Desde manhã muito cedo,
Té à noute, todo o dia…
E ficar sempre a chuchar…
Ficar a chuchar no dedo.

Desespero torturante!
Co’a alma assim tão atada,
Como podia eu ‘screver?
Nem no inferno de Dante
Se vê lá explicada
Pena assim , um tal sofrer!

No meio disto, porém,
Sempre um conforto encontrei
P’ras minhas penas dobradas,
Pois além de beber bem
E com gana me atirei
Às belas das rabanadas!

E aos mexidos e às filhós
E ao polvo e à batatada
E aos trouchos tão tenrinhos…
Ai filhós! Aqui p’ra nós,
Fiquei co’a barriga inchada
E na cebça… uns grilinhos

Zezão

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Política em Verso (20) - Zezão - 17-01-1924.

Da terra das novidades
De furor, sensacionais,
Da América do Norte
Veio há pouco um telegrama,
Publicado nos jornais
De que aqui ponho o recorte:

«New-York 12 deste,
Seis e meia da manhã;
Uma notícia das feiras!
Um general, o Estradas,
Fez agora um figurão,
Venceu um outro o Cardeiras!

Lá, p’ró México, as cousas
P’ra governo vão bem falhas,
Não ‘stão de boas feições,
Pois Estradas lhe tomou,
Além de muitas metralhas,
Um bom número de canhões!»
Ao ler uma tal notícia,
Fiquei fulo, francamente,
E a achei de cacaracá…
Pois notícias dessa laia
Não são vistas pela gente,
A cada passo por cá!

Que Estradas vença
Não causa admiração,
Se são de caixão à cova!...
Mas, se se desse contrário,
Então, sim que sensação
Não causaria tal nova!

Pois eu conheço um patusco,
Por alcunha o Zé Petrinas,
Que causas endiabradas
Pratica todos os dias.
Mas, quando toma as cardinas
Anda a cair p’las estradas…

Zezão

domingo, 24 de maio de 2009

Política em Verso (19) - Zezão - 10-01-1924

Há dias, numa gazeta,
Que de nome é «Capital»,
Li, cheio de comoção,
Uma notícia de arromba,
Mesmo até piramidal,
Que, talvez, julguem ser peta,
Um grande carapetão,
E que, afinal, não é tal…

Estava a ferrar o galho
Dum rapazola um gorducho,
Após uma fartadela,
Papo no ar, a boca aberta,
De ressonar dá-se ao luxo,
Quando uma cobra – espantalho!-
Se lhe encafua por ela
E lhe vai parar ao bucho!

E o demónio do rapaz,
Que terrível dorminhoco!
Lá continua a nanar,
Satisfeito, descansado,
Sem mentir o bicharoco,
Que, quando lhe pareceu, zás!
Lhe veio à boca, a tomar
O fresco e … gozar um pouco…

Mas o pastor, que tal viu,
- Como contá-lo não sei!-
Ficou tão abananado,
- Nossa Senhora, que horror!-
Tão fora de toda a lei,
Que co’um chilique caiu,
A gritar desesperado:
Ó da guarda! Aqui-del-rei!

Faz-me isto lembrar a história,
Já por aí muito constada,
Dum cavalheiro espanhol,
Que tinha um olho de vidro,
E que é um tanto engraçada…
Ela lá vai de memória:
- Ele gostava do gól’
Tomava a sua tacada…
E numa noute, o zarolho,
Chega a casa avinagrado
- A jumenta era bem boa!-
E, à mesa de cabeceira,
Põe o copito adorado.
Em seguida, tira o olho
E, no copo, mesmo à toa,
Deita-o dentro descuidado!

Acordou com muita sede,
Muito indisposto, trombudo,
Sentindo-se mesmo mal…
E, para a sede apagar,
Entre-abre o olho polpudo,
Co’um braço a distância mede,
Pega no copo fatal
E… emborca o seu conteúdo!

Ao outro dia olvidado,
Ansioso o olho procura,
Sem dar-lhe co’o paradeiro!
Para cúmulo da desgraça,
Além da horrível secura,
Inda se sente engasgado…
E assim anda o dia inteiro
Sem ver do seu mal… a cura…

Chama o criado: - Juan!
Viene aqui Xá, de repiente!
- Que me quiere? Diga, ustêd…
- Que mires o que aqui tengo!
- Eh! Patron! Juan no miente!
- Lo que o Juanito vê?...
- Un … ojo… a mirar la gente!!!
Zezão

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Política em Verso (18) - Zezão - 03-01-1924.

Perguntou-me o Director
Da nossa «Acção Social»
O motivo ou a razão,
Ou seja lá o que for
Do meu silêncio: então
Que tem você, seu Zezão…

Por vergonha não lhe disse
O que cá dentro sentia
E procurei-lhe ocultar
A minha grande perrice
E um sorrisinho alvar
Que me ficou a matar!

Mas a ti leitor amigo,
Se me prometes segredo,
Vou te abrir o coração
E tu vais chamar um figo
À bela da explicação,
Do silêncio do Zezão.

Se na semana passada,
Nada escrevi para o jornal
Foi por ‘star constantemente
À espera da consoada
Do meu leitor, que afinal
Deu em droga, deu em nada…

Ao ouvir bater à porta,
P’ra lá deitava a correr,
Mas, por mal dos meus pecados,
Ficava co’a cara torta,
Pois sempre via aparecer
Alguns credores irritados.

Sempre à espera – que arrelia,
Sem noutra cousa pensar,
Desde manhã, muito cedo,
Tè à noute, todo o dia…
E ficar sempre a chuchar…
Ficar a chuchar no dedo!...

Desespero torturante,
Co’a alma assim tão atada,
Como podia eu ‘screver?
Nem no Inferno de Dante
Se vê lá explicada
Pena, assim, um tal sofrer!

No meio disto, porém,
Sempre um conforto encontrei
P’ra as minhas penas dobradas,
Pois além de beber bem
E com gana me atirei
Às belas das rabanadas!

E aos mechidos e às filhós
E ao polvo e à batatada
E das trouchas tão tenrinhas…
Ai filhós! Aqui para nós,
Fiquei com a barriga inchada
E na cabeça… uns grilinhos…

É que a nossa pena e mágoa
Nunca se afogam com… água!
Zezão

quinta-feira, 30 de abril de 2009

JOGOS SEM FRONTEIRAS

A EB 2/3 Frei Caetano Brandão realizou no Campo da Vinha, em frente à Câmara Municipal de Braga, no dia 29 de Abril, pelas 21 horas, os primeiros «Jogos sem Fronteiras».
Esta actividade foi organizada pelo Projecto Comenius da escola e obteve a colaboração de várias entidades: Synergia, Câmara Municipal de Braga, Regimento de Cavalaria n.º 6 e Associação de Pais.
Neste projecto estiveram envolvidos muitos alunos e professores de vários países europeus.



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Política em Verso (17) - Zezão - 20-12-1923.

Por ter sido agraciado
«benemérito da Pátria»
Um sargento, o Gilman,
Vem daí todo escamado
O órgão da talassada
O «Correio da Manhã».

E lá desfia o rosário
Dos crimes que, na outubrada,
O figurão cometeu,
P’ra tirar o corolário:
- Agraciar tal patife
É crime que brada ao céu!...

E tem razão, sim, senhor,
O jornal supracitado
P’ra deixar explodir
A indignação e o horror!
Porque, aqui para nós, baixinho,
O caso não é de rir…

Na arenga, porém, que bota,
Há uma frase sibilina
E que não sei decifrar,
De que logo tomei nota
E em que, de dia e de noute,
Tenho andado a magicar…

Quando ele viu no chão
O saudoso coronel
Botelho de Vasconcelos,
O tal sargento Gilman
Proferiu certas palavras
D’arripiar os cabelos…

Com a pistola aperrada,
Fazendo o tiro partir,
Sem demonstrações de medo,
Gritou com voz alterada:
- «Até que, enfim, sempre pude
Fazer o gosto ao meu dedo».
Franquezinha, franquezinha,
O que ele dizer queria
Por sabê-lo inda estou eu…
Puxa tu, leitor, pela pinha…
Que gosto deu ele ao dedo?
Onde foi que ele o meteu?

Eu já vi um maçaneta
Por sinal espigadote,
Às escondidas e a medo,
Come quem toca corneta,
Matar saudades da chucha,
Metendo na boca o dedo…

E dizia que era o gosto
Maior que ele experimentava
Desde que a mãe lhe morreu!
Mas, também, agora, aposto
Em como não foi na boca
Que o tal sargento o meteu!

É que, desde o claro dia
Em que a República entrou
No nosso pobre país
É tal a patifaria,
Que é tudo sempre ao contrário
O que se faz e se diz!

Não foi, portanto, na boca
Que gosto deu ao seu dedo
O sargento vil e cru…
Mas a mim é que não toca
Dizer onde ele o meteu…
Anda leitor! Dize tu…

Leitor, não dês trato à bola!
… Foi no … cano da pistola!...

domingo, 19 de abril de 2009

POLÍTICA EM VERSO (16) - Zezão - 06-12-1923.

António Ginestal Machado (1874-1940) foi um advogado, professor liceal e político português. Entre outras funções, foi deputado, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro).

Na acção parlamentar foi considerado por aliados e adversários um homem de postura requintada e de grande elegância na palavra e na acção, o que lhe granjeou uma respeito e celebridade no mundo político português do seu tempo.

A 23 de Maio de 1921 assumiu as funções de Ministro da Instrução Pública.

A 15 de Novembro de 1923 foi escolhido para formar governo, assumindo as funções de Presidente do Conselho de Ministros (hoje Primeiro-Ministro. Era um governo minoritário, que se manteria no poder por 33 dias, até 17 de Dezembro daquele ano).

Prevenindo o Sr. Ginestal Machado duma possível revolução grita-lhe da «República»

O Sr. Mesquita de Carvalho - «abra os olhos, Snr. Ginestal Machado! Tenha os olhos bem abertos».

Diante de uma visão, do espantalho,
Duma revolução piramidal,
No seu jornal, Mesquita de Carvalho
Previne o Presidente Ginestal.

Fá-lo, porém, em termos descabidos,
Mesmo até, a meu ver, inconvenientes…
Não são os consagrados, já sabidos,
E nem primam por falta de prudentes.

Como se exprime, então, o Sôr Mesquita
No decantado aviso ao maioral
Do governo que vai puxando a guita,
A que o país ‘stá preso por seu mal?

- «Abra os olhos! Os olhos bem abertos
Tenha-os sempre, aliás, pode bem ser
Que os revolucionários mais espertos
O engolem, lhe dêem que fazer!...»

- «Abra os olhos! Que tosca d’expressão!
Como é que saiu duma caneta,
Que tem sido elogiada, e com razão,
Pela sua correcção e… pela treta?

Quando alguém é astuto e previdente
E vê longe onde os outros não distinguem,
- «Tem faro de polícia!» diz a gente…
- «De polícia tem olho», assim se exprimem.

Não devia, portanto, Sôr Mesquita
O plural, no aviso, empregar,
Que a frase lhe sairia mais catita,
Se ele antes adoptasse o singular…

Mas, p’ra que disso dúvida não fique
E da verdade se convença o meu leitor,
Queira experimentar!... Não é mais chic?
Não tem mais força e não soa melhor?
Zezão.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

POLÍTICA EM VERSO (15) - Zezão - 29-11-1923.

Desgraçado do velhinho
Que ninguém dele tem dó!
Ninguém lhe dá o cavaquinho!
Coitado! Deixam-no só!

Se fala no parlamento,
É como a voz no deserto…
Infligem-lhe esse tormento,
Ninguém o ouve! Isto é certo!

E se lhe escutam, acaso,
Da eloquência o torresmo,
É só para o porem raso,
Com insultos mil, a esmo…

Outro dia, se o toutiço,
Do ouvido não me enferma,
Alguém lhe disse «ora isso!
Cala a boca, seu palerma!»

Deixa-se o triste cair
No sofá desanimado…
E todos se põem a rir
Dum dito tão desalmado!

Não perde, porém, o alento!
D’ousadia num requinte,
A falar, no parlamento,
Volta no dia seguinte.

Leva um discurso estudado
Contra o Cunha Desleal
Onde há o tropo inflamado,
Que declama menos mal.

Mas, oh céus! O Senhor Cunha
Nem importância lhe dá!
E os outros gritam: «Á unha!
Salta velhinho p’ra cá!»

A todos numa berrata
Num clamor que sempre engrossa:
- Vai, já, já, meu patarata
Prantar couves p’ra Caroça!

- Abandonado de todos,
Ai! Que sorte Deus me deu!
Fartos desgostos a rodos…
É um inferno o viver meu!...

Como a Ofélia, contristada
E cheia de desalento,
Vou-me passar à privada
No mais escuro convento…

E, quando alguém se lembrar
Do que fui, do que sou eu,
Há-de dizer, a chorar;
- Pobre Velhino! Morreu!...

Tem razão, o infeliz!
Tudo lhe salta na pele
E tudo dele mal diz…
Como eu tenho pena dele!!!

Mas chorar?...É-me vedado
Aceder ao seu desejo!
Eu não fui contemplado!
Se o fosse… isso era queijo!
Zezão

sábado, 28 de março de 2009

POLÍTICA EM VERSO (14) - Zezão - 25-11-1923.

Por causa do novo aumento
Da bela da circulação
Em notas do dinheirinho,
Tudo anda em movimento,
Em tremenda exaltação,
Contra o velhinho!

É que ninguém abre o bico
P’ra soltar duas piadas,
Ou na cidade ou na aldeia,
Que não pinte o mafarrico,
Em frases indignadas,
Contra o Correia!

Té mesmo no parlamento
Onde não há quem não meta
O nariz e o focinho,
Por causa do tal aumento,
‘stá todo o bicho careta
Contra o velhinho!

Vem o Carvalho e o desanca
Vem o Cunha e o aperta
E o amigo Silva o enleia…
Até o procópio o arranca
Do fundo este brado «alerta»!
Contra o Correia!

Ora bolas! Por favor;
Não façam tanto barulho!
Põem o homem tolinho
Ou o fazem morrer de dor!
Não peguem mais no estadulho,
Contra o velhinho!

Cá por mim, não vou na fita!
Salvo o devido respeito,
Não levem a mal que eu creia
E aqui o diga e repita:
Que tudo isto é fingido
Contra o Correia!

Pois tenho a convicção
Que ele a isto fim poria
Se das notas um massinho
Lhes fosse meter na mão…
Então tudo gritaria:
Viva o velhinho!
Zezão

segunda-feira, 23 de março de 2009

POLÍTICA EM VERSO (13) - Zezão - 18-11-1923.

Meio mundo, impaciente,
Há muito, pergunta em vão,
Quando se encontra co’a gente:
- Quando sai a revolução?

E a gente que anda às aranhas,
Mas que sabe, quer mostrar,
Responde, com artimanhas:
- Está aqui… está a rebentar…

E o meio mundo, contente,
Vai contá-lo ao outro meio,
Que o vem contar à gente
Com ares de certo receio…

Mas passam-se meses, dias,
Passa-se um ano até,
E quero que tu te rias!
Diz-nos incrédulo o Zé…

P’ra acabar co’esta encrenca,
Mandei ao meu secretário
Que fosse meter a penca
No meio… revolucionário.

Da missão no desempenho
Com pouca sorte ele andou
E, por isso, estampar venho
A nota que me enviou:

-«Obedecendo ao mandado
De você, Senhor Zezão,
Fui procurar apressado
O chefe da revolução».

- Seu Procópio Radical,
Diga-me lá, co’a maleita,
Se a cousa não corre mal,
Se a cousa sempre se ajeita!

- Não sei o que quer dizer
Na sua pergunta audaz!
Se quer que o possa entender
Fale claro, meu rapaz!

- Pois ponho os pontos nos is,
… A cousa… é a revolução!...
- ‘steve a sair por um triz,
Hoje mesmo, esta minhão!

Porém julguei mais prudente,
Eu que sou o chefe d’ela,
Adiá-la mais p’ra frente,
Por causa de certa aquela…

Mas juro, não esteja a rir!
Embora a demora enfade,
A cousa que há-de sair
Quando eu… tiver vontade…

Que tal ‘sta o da rabeca?
Ao ler isto, estive em risco
De apresentar ao careca
As armas de… S. Francisco!
Zezão

segunda-feira, 16 de março de 2009

POLÍTICA EM VERSO (12) - Zezão - 15-11-1923.

As últimas notícias dizem que, se o Sr. Catanho Menezes conseguir formar ministério, nele tomarão parte os seguintes snrs: Catanho de Menezes, Joaquim Ribeiro, Afonso Cerqueira, Ferrão Mendes e Rego Chaves (dos Jornais).

Se o Menezes das Castanhas
Levar a missão ao fim,
Com as costumadas manhas,
Que falham, contudo, às vezes,
Razão é, penso p’ra mim,
De a Republica se saudar
Por de certo ir remoçar
Co’as Castanhas do Menezes.

No ministério apontado,
Caso ele vá a galheiro,
Eu vejo realizado,
Duma maneira formal,
O nobre, o fim altaneiro,
Que tanto almeja a nação
- A feliz resolução
Do problema nacional.

Porque, leitores, a verdade
É que dos homens citados,
Por força concluir-se há-de,
Com todo o rigor da lógica,
Pelos seus significados,
Que para a nação salvar
Tudo se pode encontrar
Na gentinha demagógica.

- Agoniza a agricultura
Por haver muitos terrenos
Incapazes de cultura
Durante o ano inteiro
E sem poder ser por menos
Por falta da regasinha?
Pois água com farturinha
Pode lha dar o… Ribeiro.

- Não se faz em Portugal
A justiça desejada
Para castigo do mal,
Quer seja a Pedro ou a Sanches?
Pois isso é contada fava!
Para a justiça fazer
Respeitada e a valer,
Basta o Ferrão do Abranches…

-‘sta a Marinha num fio
E é preciso aumentá-la.
Pois a que temos, num rio,
Inda que, pequeno e esconso,
Possível é encerrá-la?
Não faltam materiais
P’ra aumentá-la muito mais
Na… Cerqueira do Afonso.

- Mas o preciso dinheiro
P’ra o orçamento equilibrar,
Não ficará no tinteiro?
- Mau caro leitor, não sabes
Que o há-de canalizar
Do tesouro p’ra o aconchego
O Sr. Chaves do Rego
Ou o seu Rego do Chaves?...

Não há, portanto, razão
P’ra gente desanimar!
‘sta salva a lusa nação!
Por ela, leitor, não rezes!
‘sta bem longe d’expirar!
E salva pelos democratas,
Como do Afonso as batatas
E as Castanhas do Menezes!

As batatas do Afonso?!
Ai! Filho, não digas mais!
Não faças de mim Alonso!
- Pois é verdade, leitor!
São aquelas, são as tais
Com que, terça, no Rossio,
Brindá-lo, com garbo e brio,
Quiseram os radicais…

Zezão

domingo, 1 de março de 2009

Política em Verso (11) - Zezão - 08-11-1923.

No correio da Manhã,
Um dos jornais lisboetas,
Em letras mui miudinhas
Vem umas noticiasinhas
Que, às vezes, p´ra mim eu julgo
Seriam bem metidinhas
No calhamaço das petas.

Imaginem os leitores
Que nele acabo de ler,
Nos tais caracteres usados,
E com olhos duplicados
Esta notícia d’arromba
Que, por mal dos meus pecados,
Vos sou forçado a dizer:

O Bernardino, pedreiro,
(onde mora, não aumenta)
Na polícia se queixou,
Num dia que já passou,
De que lhe tinha roubado
Alguém que não nomeou
A querida ferramenta.

Quem será Bernardino?
Se a minha mente não erra,
Creio já tê-lo matado…
Não será ele o Machado?
Deve ser! Embora haja,
Segundo afirma o ditado
Muitas Marias na terra…

O facto de ser pedreiro
Em ninguém confusão mete
Pois, sendo ele mação,
Pedreiro livre é, e, então,
Não espanta lhe roubasse
Qualquer esperto ladrão
O compasso e o malhête…

Por isso motivos tem
De ver a alma em tormenta
E o coração machucado.
Pois vê-se impossibilitado
De trabalhar – coitadinho!-
O Bernardino Machado,
Por falta de ferramenta…

Até, leitores, me parece
Que ele assim se não aguenta
Co’o testo no seu lugar;
Que, enquanto a não encontrar,
Noite e dia, o bom do homem,
Não deixará de berrar:
Que é da minha ferramenta?

E, daí, talvez quem sabe
É esta a opinião minha,
Se ela seria roubada?
Não ficaria arrumada
Como já tem sucedido,
E no avental embrulhada,
Na loja da … Viuvinha?
Zezão

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Política em Verso (10) - Zezão - 01-11-1923

Quem é o «Correia?». Foi o Ministro das Finanças a partir de 13 de Agosto de 1923. Chamava-se Francisco Gonçalves Velhinho Correia e pouco tempo lá esteve pois foi substituido por Vitorino Guimarães nas finanças em 24 de Outubro de 1923. Sendo assim certas palavras e expressões ganham outro sentido: velhinho, inflação, largar a correia, notas, dinheirinho.

Por ‘star tudo consternado
Co’o enterro do velhinho
Não vão Foguetes nem bichas,
Vai o Fado Choradinho.

Triste sorte a do velhinho
Um mau fado o perseguiu…
Quis largar a Correia
E a Correia… partiu!

Por causa da inflação
Das notas, do dinheirinho,
Deu com as ventas no chão,
Triste sorte a do velhinho!

Foi por qu’rer encher as burras
Dos amigos, que caiu.
Toda a gente lhe deu turras,
Um mau fado o perseguiu.

Tendo uma boa moela,
Não via a barriga cheia,
Para dar-lhe uma fartadela,
Quis alargar a … Correia.

Mas a pança tanto inchou,
Tão aflita se viu
Que o velhinho arrebentou
E a … Correia partiu.

Chorai, fadistas, chorai!
Seja o pranto maré cheia
E um Padre Nosso rezai
Pelo Velhinho Correia.

Morreu o nosso velhinho
Sem ter de dar um ai
Sofreu tanto coitadinho!
Chorai, fadistas, Chorai!

Por bem fazer, mal haver!
Deram-lhe tanta tareia…
Quem não se há-de enternecer?
Seja o pranto maré cheia!

Sobre a lousa funerária
Goivos, saudades ‘sfolhai,
Ponde os joelhos em terra
E um Padre Nosso Rezai.

Não ouvis o som plangente
Dos sinos, em légua e meia,
Soluçam em tom dolente,
Pelo Velhinho Correia!

Coradas, novas coradas,
P’ra o fastio é bom a urtiga!
Lhe meteram faca em costa,
E a bengala em barriga.
Zezão

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O ZEZÃO NO SEU TEMPO

Os escritos políticos, assinados por Zezão, entre 1923 e 1924, no Jornal O Dumiense, enquadram-se num período politicamente agitado. Os governos sucediam-se, não dando tempo a que as medidas sugeridas fossem aplicadas.
Entre 1910 e 1925, o país assistiu à tomada de posse de 45 governos e 8 presidentes da República. Estes números demonstram bem a instabilidade governativa de então.
Este ambiente tornou-se favorável à intervenção do exército que, em 28 de Maio de 1926, através do General Gomes da Costa, acabou com a primeira República e instaurou a ditadura militar. Os militares conservadores partiram de Braga, passaram pelo Porto e avançaram sobre Lisboa. Dissolveram o parlamento, suspenderam a constituição e entregaram a chefia do governo a um militar.

Política em Verso (9) - Zezão - 11-10-1923

Acabo de ler agora,
Num dos jornais da invicta,
Uma notícia catita
Mas que inspira dor e mágoa,
Das tais de molde e de jeito
A pôr-nos o testo em água!

Na Lisboa marmória e bela,
Os presos do limoeiro
Pensam levar a galheiro,
E querem que a sério os tome
Todo o mundo, uma parede,
Chamada greve de fome.

Valha-nos Nossa Senhora!
Neste mundo sublunar,
Por onde se anda a penar
A sorte mofina e dura,
Existem certos meninos
Que tem cada lembradura!...

Que se lembrassem da greve
Com a sua objectiva
De, na cama paparriba,
Soecar como uma catita…,
Ai, filhos! Não digo nada,
Era uma ideia bonita!...

Mas ir p´ra greve da fome,
Isto é, pôr em descanso,
Como um qualquer manipanso,
Os queixos que Deus nos deu,
É uma ideia dos diabos…
Nessa não caio eu!

E demais no Limoeiro
Onde há o limão a rodos,
Limão que faz fome a todos,
Afugentando o fastio…
Era de, passado algum tempo,
Pôr-nos o corpo… num fio!

Nada! Nada! Cebolório!
Se os tais presos a mania
Não perdem, passado um dia,
Hão-de sentir tal larica
Que depois engolem tudo
Nem té a marmita fica!

Deixem-se disso, senhores!
Comam-lhe bem, como dantes,
Mas não comidas picantes
Para não lhes suceder,
Por reservados motivos,
Andarem sempre… a correr…
Zezão

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Política em Verso (8) - Zezão - 04-10-1923.

Anda tudo em sobressalto
Por causa dos ratoneiros
Que, à laia de cães rafeiros,
Assaltam os viandantes
E as casas dos cidadãos
A roubar os mealheiros
E as carnes dos fumeiros
E os pingues dos porrões.

E é tanto o seu descaro,
Sua audácia e impudor
Que, seja lá onde for,
Quer de noite, quer de dia,
Os figurões nem sequer
Sentem o menor horror
Em atentar contra o pudor
Da indefesa mulher.

E, o que é mais de estranhar
É o que dizem os jornais
Que autoridades locais
Não tomam as providências
Devidas, o que é urgente,
Dizendo uma das tais,
Entre muchas cosas mais:
- Nada quero com tal gente!

A resposta é das de arromba
De quem tem um fino tacto!
Entorna um carro de mato,
É um assombro de esperteza,
Causa pasmo à terra, ao céu!
Não a inventaria o rato
P´ra ver-se livre do gato!
É de tirar-lhe o chapéu!

Visto isto, que fazer?
O andar-se sempre armado
De escopeta e apetrechado
E o olho sempre alerta
E cá na mente este fito:
Logo que eu seja assaltado,
Por um qualquer desalmado
Largo-lhe logo um tirito…

Mas se um tiro não bastar
Para na ordem o meter
Que é que eu hei-de fazer?
Ora leitor, caro amigo,
Bem mostras que pouco vês!
Em lugar de só dar-lhe um,
Puxa o gatilho: Pum…Pum!
E larga-lhe duas ou três…
Mostra-lhe a ordem… a fugir!
Zezão

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Política em Verso (7) - Zezão - 06-09-1923.

Depois de tão grande alarme,
Em que Lisboa se viu,
Voltou de novo o sossego,
Porque tudo entrou no rego,
Tudo nos eixos caiu.

A greve-revolução
Que prometia feroz
Derrubar este governo,
Já deu a alma ao inferno,
Foi mesmo de catrapóz!

É que o António Maria
Que nestas cousas, é um alho,
Abrindo o público erário
Conseguiu que operário
Voltasse todo ao trabalho.

Calou-se, pois imponente
A voz da bomba infernal
E o Lisboeta coitado,
Já a ela acostumado,
Tem saudades, passa mal…

E, para dar-se a ilusão
De, a cada passo, a ouvir
E com seu som se embalar,
Trata até de as fabricar
Em casa p’ra as não pedir!

Mas em vez do clorato,
Metralha, pregos e tudo,
Que mata e faz explosão,
Mete na bomba o ratão
… Cebola e feijão miúdo…

Efeito prodigioso!
De manhã, mal rompe o dia,
Não há palácio ou tegúrio
Onde não se ouça o murmúrio
De confusa bateria!

É nas salas, às janelas,
No pátio, no saguão
E nos quartos de dormir,
Onde se faz mais sentir
O estrondo da explosão!

Forte mania, leitores,
Que na loucura já tomba!
De alguns dias p’ra cá
Já alfacinha não há
Que não deite a sua bomba!

Nisto, afinal vem a dar,
Inda que alguém se quisil,
A arma preconizada
E pelo mesmo alcunhada
De… artilharia civil.
Zezão

domingo, 25 de janeiro de 2009

Política em Verso (6) - Zezão - 23-08-1923

Ai! Pobre Bernardino!
Cantou vitória bem cedo!
Andava mesmo num sino,
Pensava ser Presidente,
Mas, por um fatal destino,
Ficou a chuchar no dedo!

E daí todo espinhado,
Despeitado, furibundo,
Esquece que é cordeal,
Lambisgóia e et coetera,
E desata a dizer mal
Do Afonso e de todo o mundo.

Do Afonso por ter escrito
Aos vassalos democratas,
De bem conhecidos nomes;
- Votai no Teixeira Gomes!
Não voteis no Bernardino,
Mandai-o sachar batatas!

E dos outros deputados
Por não reconhecerem nele
O homem da situação
Que os ossos da votação
Lhe deram, aqueles míseros,
Já esburgados, sem pele…

Coitado do Bernardino,
Grande herói da Lusa Asneira
Isso foi chão que deu uvas:
Infeliz, velha criança,
Vai p´ro colo da viúva,
Pede chucha e mamadeira!...