| Na Rua da Boa Vista Da Braga Augusta e Leal Foi presa uma jornalista, De nome Antónia Barbosa, Diz de lá certo jornal. Mas porquê? Qual o delito Que a Barbosa cometeu? É o que ainda não está dito, Mas que o leitor vai saber Porque essa lho juro eu. Talvez abuso d’ imprensa Da cantada Liberdade! O leitor consigo pensa… Mas labora num equívoco Que não é essa a verdade! Por outro crime foi presa, É crime que brada aos céus, Qual doutro a história não reza De colegas jornalistas: Por ser ladra de chapéus! Mas o colega citado Sem que o caso lho mereça Mostra-se todo espantado Por, quando ela foi presa, Ter os chapéus na cabeça! | Há por aí cada maduro! Pois, então, qual o lugar, O mais próprio e o mais seguro, Para o penante ou palhinhas A gente escarrapachar? Eu creio ser a cabeça… E o colega bracarense Com um teimoso tropeça Pois de que seja outro o sítio A mim nunca me convence. Porque todo o chapéu tendo O formato circular, Já o leitor está vendo Que, exclusivo, a cabeça Só se ele pôde ajustar. E mesmo, amigo leitor, Por causa da segurança Etcetera, sim senhor! Aliás sempre a cair Andava na eterna dança. Se em outra parte o pusesse - Mas que fosse circular – Aquele que o trouxesse, Só segurá-lo podia Com um … prego de caibrar. Zezão |
Seja bem-vindo a «História por um Canudo».
Aqui encontrarão diversas investigações e publicações sobre áreas do meu interesse:
as minhas impressões;
a minha terra, Mire de Tibães;
o pedagogo e pai dos pobres, Frei Caetano Brandão;
o património de Braga.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Política em Verso (23) - Zezão - 05-06-1924.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Política em Verso (22) - Zezão - 08-05-1924.
| Diz um certo jornalista Que escreve da Lisboa bela Para um jornal da invicta, Que o governo está na pista Duma fita bolchevista E tem medo que se pela! Que, por isso prevenido, Já fez ir para Lisboa Muitas tropas da província, Arreganhando atrevido A dentuça e pondo o ouvido À escuta… Esta é bem boa! É que isso lhe faz lembrar, O meu leitor não se ria, Certos rapazes que soem O inimigo ameaçar: - «Deixa! Tu hás-de passar À porta da minha tia!...» | O que isto dá a entender É que o dito jornalista, Há tempos, aqui p’ra traz, Também usava fazer O que o seu olho está a ver No governo alvarista. Devia ser mais discreto O tal do camaroeiro! Assim ‘stragou o repolho, Deixou de ser justo e recto… Porque não calou o peito, Seu … Homem… do soalheiro? E daí, talvez, tivesse Muitos carros de razão, Que, se a cousa avante fosse, Se a revolução se desse, Talvez, por lá, não houvesse O necessário sabão… Pois o medo tal seria Nos lisboetas papoulas Que logo que ela estalasse, Todo o mundo fugiria… E quem é que o pagaria Se não os pobres ceroulas? Zezão |
sábado, 13 de junho de 2009
Política em Verso (21) - Zezão - 24-01-1924.
| Perguntou-me o Director da nossa «Acção Social» O motivo ou a razão Ou seja lá o que for Do meu silêncio: – Então Que tem você, seu Zezão!... Por vergonha não lhe disse O que cá dentro sentia E procurei-lhe ocultar A minha grande perrice, E um sorrisinho alvar Que me fica a matar! Mas a ti, leitor amigo, Se me prometes segredo, Vou- te abrir o coração E tu vais chamar um figo A bela da explicação, Do silêncio do Zezão! Se na semana passada Nada escrevi para o jornal Foi por estar constantemente À espera da consoada Do meu leitor, afinal, Deu em droga, deu em nada. | Ao ouvir bater a porta, P’ra lá deitava a correr, Mas por mal dos meus pecados, Ficava co’a cara torta, Pois sempre via aparecer Alguns credores irritados. Sempre à espera – que arrelia! Sem noutra cousa pensar, Desde manhã muito cedo, Té à noute, todo o dia… E ficar sempre a chuchar… Ficar a chuchar no dedo. Desespero torturante! Co’a alma assim tão atada, Como podia eu ‘screver? Nem no inferno de Dante Se vê lá explicada Pena assim , um tal sofrer! No meio disto, porém, Sempre um conforto encontrei P’ras minhas penas dobradas, Pois além de beber bem E com gana me atirei Às belas das rabanadas! E aos mexidos e às filhós E ao polvo e à batatada E aos trouchos tão tenrinhos… Ai filhós! Aqui p’ra nós, Fiquei co’a barriga inchada E na cebça… uns grilinhos Zezão |
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Política em Verso (20) - Zezão - 17-01-1924.
| Da terra das novidades De furor, sensacionais, Da América do Norte Veio há pouco um telegrama, Publicado nos jornais De que aqui ponho o recorte: «New-York 12 deste, Seis e meia da manhã; Uma notícia das feiras! Um general, o Estradas, Fez agora um figurão, Venceu um outro o Cardeiras! Lá, p’ró México, as cousas P’ra governo vão bem falhas, Não ‘stão de boas feições, Pois Estradas lhe tomou, Além de muitas metralhas, Um bom número de canhões!» | Ao ler uma tal notícia, Fiquei fulo, francamente, E a achei de cacaracá… Pois notícias dessa laia Não são vistas pela gente, A cada passo por cá! Que Estradas vença Não causa admiração, Se são de caixão à cova!... Mas, se se desse contrário, Então, sim que sensação Não causaria tal nova! Pois eu conheço um patusco, Por alcunha o Zé Petrinas, Que causas endiabradas Pratica todos os dias. Mas, quando toma as cardinas Anda a cair p’las estradas… Zezão |
domingo, 24 de maio de 2009
Política em Verso (19) - Zezão - 10-01-1924
| Há dias, numa gazeta, Que de nome é «Capital», Li, cheio de comoção, Uma notícia de arromba, Mesmo até piramidal, Que, talvez, julguem ser peta, Um grande carapetão, E que, afinal, não é tal… Estava a ferrar o galho Dum rapazola um gorducho, Após uma fartadela, Papo no ar, a boca aberta, De ressonar dá-se ao luxo, Quando uma cobra – espantalho!- Se lhe encafua por ela E lhe vai parar ao bucho! E o demónio do rapaz, Que terrível dorminhoco! Lá continua a nanar, Satisfeito, descansado, Sem mentir o bicharoco, Que, quando lhe pareceu, zás! Lhe veio à boca, a tomar O fresco e … gozar um pouco… Mas o pastor, que tal viu, - Como contá-lo não sei!- Ficou tão abananado, - Nossa Senhora, que horror!- Tão fora de toda a lei, Que co’um chilique caiu, A gritar desesperado: Ó da guarda! Aqui-del-rei! Faz-me isto lembrar a história, Já por aí muito constada, Dum cavalheiro espanhol, Que tinha um olho de vidro, E que é um tanto engraçada… Ela lá vai de memória: - Ele gostava do gól’ Tomava a sua tacada… | E numa noute, o zarolho, Chega a casa avinagrado - A jumenta era bem boa!- E, à mesa de cabeceira, Põe o copito adorado. Em seguida, tira o olho E, no copo, mesmo à toa, Deita-o dentro descuidado! Acordou com muita sede, Muito indisposto, trombudo, Sentindo-se mesmo mal… E, para a sede apagar, Entre-abre o olho polpudo, Co’um braço a distância mede, Pega no copo fatal E… emborca o seu conteúdo! Ao outro dia olvidado, Ansioso o olho procura, Sem dar-lhe co’o paradeiro! Para cúmulo da desgraça, Além da horrível secura, Inda se sente engasgado… E assim anda o dia inteiro Sem ver do seu mal… a cura… Chama o criado: - Juan! Viene aqui Xá, de repiente! - Que me quiere? Diga, ustêd… - Que mires o que aqui tengo! - Eh! Patron! Juan no miente! - Lo que o Juanito vê?... - Un … ojo… a mirar la gente!!! Zezão |
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Política em Verso (18) - Zezão - 03-01-1924.
Perguntou-me o Director | Sempre à espera – que arrelia, |
quinta-feira, 30 de abril de 2009
JOGOS SEM FRONTEIRAS
A EB 2/3 Frei Caetano Brandão realizou no Campo da Vinha, em frente à Câmara Municipal de Braga, no dia 29 de Abril, pelas 21 horas, os primeiros «Jogos sem Fronteiras».
Esta actividade foi organizada pelo Projecto Comenius da escola e obteve a colaboração de várias entidades: Synergia, Câmara Municipal de Braga, Regimento de Cavalaria n.º 6 e Associação de Pais.
Neste projecto estiveram envolvidos muitos alunos e professores de vários países europeus.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Política em Verso (17) - Zezão - 20-12-1923.
| Por ter sido agraciado «benemérito da Pátria» Um sargento, o Gilman, Vem daí todo escamado O órgão da talassada O «Correio da Manhã». E lá desfia o rosário Dos crimes que, na outubrada, O figurão cometeu, P’ra tirar o corolário: - Agraciar tal patife É crime que brada ao céu!... E tem razão, sim, senhor, O jornal supracitado P’ra deixar explodir A indignação e o horror! Porque, aqui para nós, baixinho, O caso não é de rir… Na arenga, porém, que bota, Há uma frase sibilina E que não sei decifrar, De que logo tomei nota E em que, de dia e de noute, Tenho andado a magicar… Quando ele viu no chão O saudoso coronel Botelho de Vasconcelos, O tal sargento Gilman Proferiu certas palavras D’arripiar os cabelos… Com a pistola aperrada, Fazendo o tiro partir, Sem demonstrações de medo, Gritou com voz alterada: - «Até que, enfim, sempre pude Fazer o gosto ao meu dedo». | Franquezinha, franquezinha, O que ele dizer queria Por sabê-lo inda estou eu… Puxa tu, leitor, pela pinha… Que gosto deu ele ao dedo? Onde foi que ele o meteu? Eu já vi um maçaneta Por sinal espigadote, Às escondidas e a medo, Come quem toca corneta, Matar saudades da chucha, Metendo na boca o dedo… E dizia que era o gosto Maior que ele experimentava Desde que a mãe lhe morreu! Mas, também, agora, aposto Em como não foi na boca Que o tal sargento o meteu! É que, desde o claro dia Em que a República entrou No nosso pobre país É tal a patifaria, Que é tudo sempre ao contrário O que se faz e se diz! Não foi, portanto, na boca Que gosto deu ao seu dedo O sargento vil e cru… Mas a mim é que não toca Dizer onde ele o meteu… Anda leitor! Dize tu… Leitor, não dês trato à bola! … Foi no … cano da pistola!... |
domingo, 19 de abril de 2009
POLÍTICA EM VERSO (16) - Zezão - 06-12-1923.
António Ginestal Machado (1874-1940) foi um advogado, professor liceal e político português. Entre outras funções, foi deputado, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro).
Na acção parlamentar foi considerado por aliados e adversários um homem de postura requintada e de grande elegância na palavra e na acção, o que lhe granjeou uma respeito e celebridade no mundo político português do seu tempo.
A 23 de Maio de 1921 assumiu as funções de Ministro da Instrução Pública.
A 15 de Novembro de 1923 foi escolhido para formar governo, assumindo as funções de Presidente do Conselho de Ministros (hoje Primeiro-Ministro. Era um governo minoritário, que se manteria no poder por 33 dias, até 17 de Dezembro daquele ano).
Prevenindo o Sr. Ginestal Machado duma possível revolução grita-lhe da «República»
O Sr. Mesquita de Carvalho - «abra os olhos, Snr. Ginestal Machado! Tenha os olhos bem abertos».
Diante de uma visão, do espantalho,
| - «Abra os olhos! Que tosca d’expressão! |
quinta-feira, 2 de abril de 2009
POLÍTICA EM VERSO (15) - Zezão - 29-11-1923.
Desgraçado do velhinho Se fala no parlamento, E se lhe escutam, acaso, Outro dia, se o toutiço, Deixa-se o triste cair Não perde, porém, o alento! Leva um discurso estudado | Mas, oh céus! O Senhor Cunha A todos numa berrata - Abandonado de todos, Como a Ofélia, contristada E, quando alguém se lembrar Tem razão, o infeliz! Mas chorar?...É-me vedado |
sábado, 28 de março de 2009
POLÍTICA EM VERSO (14) - Zezão - 25-11-1923.
Por causa do novo aumento É que ninguém abre o bico Té mesmo no parlamento | Vem o Carvalho e o desanca Ora bolas! Por favor; Cá por mim, não vou na fita! Pois tenho a convicção |
segunda-feira, 23 de março de 2009
POLÍTICA EM VERSO (13) - Zezão - 18-11-1923.
Meio mundo, impaciente,
E a gente que anda às aranhas,
E o meio mundo, contente,
Mas passam-se meses, dias,
P’ra acabar co’esta encrenca,
Da missão no desempenho | -«Obedecendo ao mandado
- Seu Procópio Radical,
- Não sei o que quer dizer
- Pois ponho os pontos nos is,
Porém julguei mais prudente,
Mas juro, não esteja a rir!
Que tal ‘sta o da rabeca? |
segunda-feira, 16 de março de 2009
POLÍTICA EM VERSO (12) - Zezão - 15-11-1923.
As últimas notícias dizem que, se o Sr. Catanho Menezes conseguir formar ministério, nele tomarão parte os seguintes snrs: Catanho de Menezes, Joaquim Ribeiro, Afonso Cerqueira, Ferrão Mendes e Rego Chaves (dos Jornais).
Se o Menezes das Castanhas
No ministério apontado,
Porque, leitores, a verdade
- Agoniza a agricultura
- Não se faz em Portugal | -‘sta a Marinha num fio
- Mas o preciso dinheiro
Não há, portanto, razão
As batatas do Afonso?! Zezão |
domingo, 1 de março de 2009
Política em Verso (11) - Zezão - 08-11-1923.
Um dos jornais lisboetas,
Em letras mui miudinhas
Vem umas noticiasinhas
Que, às vezes, p´ra mim eu julgo
Seriam bem metidinhas
No calhamaço das petas.
Imaginem os leitores
Que nele acabo de ler,
Nos tais caracteres usados,
E com olhos duplicados
Esta notícia d’arromba
Que, por mal dos meus pecados,
Vos sou forçado a dizer:
O Bernardino, pedreiro,
(onde mora, não aumenta)
Na polícia se queixou,
Num dia que já passou,
De que lhe tinha roubado
Alguém que não nomeou
A querida ferramenta.
Quem será Bernardino?
Se a minha mente não erra,
Creio já tê-lo matado…
Não será ele o Machado?
Deve ser! Embora haja,
Segundo afirma o ditado
Muitas Marias na terra…
O facto de ser pedreiro
Em ninguém confusão mete
Pois, sendo ele mação,
Pedreiro livre é, e, então,
Não espanta lhe roubasse
Qualquer esperto ladrão
O compasso e o malhête…
Por isso motivos tem
De ver a alma em tormenta
E o coração machucado.
Pois vê-se impossibilitado
De trabalhar – coitadinho!-
O Bernardino Machado,
Por falta de ferramenta…
Até, leitores, me parece
Que ele assim se não aguenta
Co’o testo no seu lugar;
Que, enquanto a não encontrar,
Noite e dia, o bom do homem,
Não deixará de berrar:
Que é da minha ferramenta?
E, daí, talvez quem sabe
É esta a opinião minha,
Se ela seria roubada?
Não ficaria arrumada
Como já tem sucedido,
E no avental embrulhada,
Na loja da … Viuvinha?
Zezão
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Política em Verso (10) - Zezão - 01-11-1923
Por ‘star tudo consternado
Co’o enterro do velhinho
Não vão Foguetes nem bichas,
Vai o Fado Choradinho.
Triste sorte a do velhinho
Um mau fado o perseguiu…
Quis largar a Correia
E a Correia… partiu!
Por causa da inflação
Das notas, do dinheirinho,
Deu com as ventas no chão,
Triste sorte a do velhinho!
Foi por qu’rer encher as burras
Dos amigos, que caiu.
Toda a gente lhe deu turras,
Um mau fado o perseguiu.
Tendo uma boa moela,
Não via a barriga cheia,
Para dar-lhe uma fartadela,
Quis alargar a … Correia.
Mas a pança tanto inchou,
Tão aflita se viu
Que o velhinho arrebentou
E a … Correia partiu.
Chorai, fadistas, chorai!
Seja o pranto maré cheia
E um Padre Nosso rezai
Pelo Velhinho Correia.
Morreu o nosso velhinho
Sem ter de dar um ai
Sofreu tanto coitadinho!
Chorai, fadistas, Chorai!
Por bem fazer, mal haver!
Deram-lhe tanta tareia…
Quem não se há-de enternecer?
Seja o pranto maré cheia!
Sobre a lousa funerária
Goivos, saudades ‘sfolhai,
Ponde os joelhos em terra
E um Padre Nosso Rezai.
Não ouvis o som plangente
Dos sinos, em légua e meia,
Soluçam em tom dolente,
Pelo Velhinho Correia!
Coradas, novas coradas,
P’ra o fastio é bom a urtiga!
Lhe meteram faca em costa,
E a bengala em barriga.
Zezão
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O ZEZÃO NO SEU TEMPO
Entre 1910 e 1925, o país assistiu à tomada de posse de 45 governos e 8 presidentes da República. Estes números demonstram bem a instabilidade governativa de então.
Este ambiente tornou-se favorável à intervenção do exército que, em 28 de Maio de 1926, através do General Gomes da Costa, acabou com a primeira República e instaurou a ditadura militar. Os militares conservadores partiram de Braga, passaram pelo Porto e avançaram sobre Lisboa. Dissolveram o parlamento, suspenderam a constituição e entregaram a chefia do governo a um militar.
Política em Verso (9) - Zezão - 11-10-1923
Num dos jornais da invicta,
Uma notícia catita
Mas que inspira dor e mágoa,
Das tais de molde e de jeito
A pôr-nos o testo em água!
Na Lisboa marmória e bela,
Os presos do limoeiro
Pensam levar a galheiro,
E querem que a sério os tome
Todo o mundo, uma parede,
Chamada greve de fome.
Valha-nos Nossa Senhora!
Neste mundo sublunar,
Por onde se anda a penar
A sorte mofina e dura,
Existem certos meninos
Que tem cada lembradura!...
Que se lembrassem da greve
Com a sua objectiva
De, na cama paparriba,
Soecar como uma catita…,
Ai, filhos! Não digo nada,
Era uma ideia bonita!...
Mas ir p´ra greve da fome,
Isto é, pôr em descanso,
Como um qualquer manipanso,
Os queixos que Deus nos deu,
É uma ideia dos diabos…
Nessa não caio eu!
E demais no Limoeiro
Onde há o limão a rodos,
Limão que faz fome a todos,
Afugentando o fastio…
Era de, passado algum tempo,
Pôr-nos o corpo… num fio!
Nada! Nada! Cebolório!
Se os tais presos a mania
Não perdem, passado um dia,
Hão-de sentir tal larica
Que depois engolem tudo
Nem té a marmita fica!
Deixem-se disso, senhores!
Comam-lhe bem, como dantes,
Mas não comidas picantes
Para não lhes suceder,
Por reservados motivos,
Andarem sempre… a correr…
Zezão
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Política em Verso (8) - Zezão - 04-10-1923.
Por causa dos ratoneiros
Que, à laia de cães rafeiros,
Assaltam os viandantes
E as casas dos cidadãos
A roubar os mealheiros
E as carnes dos fumeiros
E os pingues dos porrões.
E é tanto o seu descaro,
Sua audácia e impudor
Que, seja lá onde for,
Quer de noite, quer de dia,
Os figurões nem sequer
Sentem o menor horror
Em atentar contra o pudor
Da indefesa mulher.
E, o que é mais de estranhar
É o que dizem os jornais
Que autoridades locais
Não tomam as providências
Devidas, o que é urgente,
Dizendo uma das tais,
Entre muchas cosas mais:
- Nada quero com tal gente!
A resposta é das de arromba
De quem tem um fino tacto!
Entorna um carro de mato,
É um assombro de esperteza,
Causa pasmo à terra, ao céu!
Não a inventaria o rato
P´ra ver-se livre do gato!
É de tirar-lhe o chapéu!
Visto isto, que fazer?
O andar-se sempre armado
De escopeta e apetrechado
E o olho sempre alerta
E cá na mente este fito:
Logo que eu seja assaltado,
Por um qualquer desalmado
Largo-lhe logo um tirito…
Mas se um tiro não bastar
Para na ordem o meter
Que é que eu hei-de fazer?
Ora leitor, caro amigo,
Bem mostras que pouco vês!
Em lugar de só dar-lhe um,
Puxa o gatilho: Pum…Pum!
E larga-lhe duas ou três…
Mostra-lhe a ordem… a fugir!
Zezão
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Política em Verso (7) - Zezão - 06-09-1923.
Em que Lisboa se viu,
Voltou de novo o sossego,
Porque tudo entrou no rego,
Tudo nos eixos caiu.
A greve-revolução
Que prometia feroz
Derrubar este governo,
Já deu a alma ao inferno,
Foi mesmo de catrapóz!
É que o António Maria
Que nestas cousas, é um alho,
Abrindo o público erário
Conseguiu que operário
Voltasse todo ao trabalho.
Calou-se, pois imponente
A voz da bomba infernal
E o Lisboeta coitado,
Já a ela acostumado,
Tem saudades, passa mal…
E, para dar-se a ilusão
De, a cada passo, a ouvir
E com seu som se embalar,
Trata até de as fabricar
Em casa p’ra as não pedir!
Mas em vez do clorato,
Metralha, pregos e tudo,
Que mata e faz explosão,
Mete na bomba o ratão
… Cebola e feijão miúdo…
Efeito prodigioso!
De manhã, mal rompe o dia,
Não há palácio ou tegúrio
Onde não se ouça o murmúrio
De confusa bateria!
É nas salas, às janelas,
No pátio, no saguão
E nos quartos de dormir,
Onde se faz mais sentir
O estrondo da explosão!
Forte mania, leitores,
Que na loucura já tomba!
De alguns dias p’ra cá
Já alfacinha não há
Que não deite a sua bomba!
Nisto, afinal vem a dar,
Inda que alguém se quisil,
A arma preconizada
E pelo mesmo alcunhada
De… artilharia civil.
Zezão
domingo, 25 de janeiro de 2009
Política em Verso (6) - Zezão - 23-08-1923
Cantou vitória bem cedo!
Andava mesmo num sino,
Pensava ser Presidente,
Mas, por um fatal destino,
Ficou a chuchar no dedo!
E daí todo espinhado,
Despeitado, furibundo,
Esquece que é cordeal,
Lambisgóia e et coetera,
E desata a dizer mal
Do Afonso e de todo o mundo.
Do Afonso por ter escrito
Aos vassalos democratas,
De bem conhecidos nomes;
- Votai no Teixeira Gomes!
Não voteis no Bernardino,
Mandai-o sachar batatas!
E dos outros deputados
Por não reconhecerem nele
O homem da situação
Que os ossos da votação
Lhe deram, aqueles míseros,
Já esburgados, sem pele…
Coitado do Bernardino,
Grande herói da Lusa Asneira
Isso foi chão que deu uvas:
Infeliz, velha criança,
Vai p´ro colo da viúva,
Pede chucha e mamadeira!...