segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Política em Verso (9) - Zezão - 11-10-1923

Acabo de ler agora,
Num dos jornais da invicta,
Uma notícia catita
Mas que inspira dor e mágoa,
Das tais de molde e de jeito
A pôr-nos o testo em água!

Na Lisboa marmória e bela,
Os presos do limoeiro
Pensam levar a galheiro,
E querem que a sério os tome
Todo o mundo, uma parede,
Chamada greve de fome.

Valha-nos Nossa Senhora!
Neste mundo sublunar,
Por onde se anda a penar
A sorte mofina e dura,
Existem certos meninos
Que tem cada lembradura!...

Que se lembrassem da greve
Com a sua objectiva
De, na cama paparriba,
Soecar como uma catita…,
Ai, filhos! Não digo nada,
Era uma ideia bonita!...

Mas ir p´ra greve da fome,
Isto é, pôr em descanso,
Como um qualquer manipanso,
Os queixos que Deus nos deu,
É uma ideia dos diabos…
Nessa não caio eu!

E demais no Limoeiro
Onde há o limão a rodos,
Limão que faz fome a todos,
Afugentando o fastio…
Era de, passado algum tempo,
Pôr-nos o corpo… num fio!

Nada! Nada! Cebolório!
Se os tais presos a mania
Não perdem, passado um dia,
Hão-de sentir tal larica
Que depois engolem tudo
Nem té a marmita fica!

Deixem-se disso, senhores!
Comam-lhe bem, como dantes,
Mas não comidas picantes
Para não lhes suceder,
Por reservados motivos,
Andarem sempre… a correr…
Zezão