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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Meu Tio na Festa de Parada de Tibães

Na festa principal da freguesia de Parada de Tibães, realizada em 27 de Setembro de 1925, na parte religiosa sobressaiu o meu Tio Padre José Peixoto de Oliveira. Lê-se numa notícia da época: «Realizam-se hoje, Domingo, 27 de Setembro, as festas a S. Paio, padroeiro da freguesia de Parada, deste concelho, havendo às 8 horas da manhã missa rezada, comunhão geral aos adultos e crianças e prática pelo distinto orador sagrado reverendo padre José Peixoto de Oliveira e assim termina o tríduo que o referido orador tem feito desde o dia 24 ao Santíssimo Sacramento… às 4 horas da tarde Sermão pelo mesmo orador sagrado».

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

FREI ANTÓNIO JOSÉ DA COSTA (FREI JOÃO DE S. MIGUEL)

Era irmão da minha pentavó. Filho de João José Gomes e de Ana Maria Peixoto, nasceu na Freguesia de São Miguel de Frossos, em 22 de Outubro de 1813. Neto paterno de Pedro Gomes Pereira do Lago e Teresa Maria da Silva, ambos naturais de Santa Cristina da Pousa. Neto Materno de António José da Costa e de Maria Peixota, naturais de Frossos. Foi baptizado pelo vigário António José da Ponte a 24 do mesmo mês e ano.
Ingressou na Ordem de S. Francisco.
Faleceu a 11 de Dezembro de 1888, com setenta e cinco anos. Foi sepultado na Igreja Paroquial de Frossos, quando era pároco o Padre Boaventura da Silva.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

PADRE BOAVENTURA JOSÉ RODRIGUES

Nasceu em Parada de Tibães em 14 de Julho de 1881, na casa da Família Mário Sequeira e faleceu em 28 de Dezembro de 1956. Filho de António José Rodrigues e Rosa Maria Duarte.
Em 19 de Maio de 1905, recebeu a inquirição de génere.
Foi Capelão do Pópulo e da Capela do Guadalupe.
Dava aulas particulares, na Casa do Rasteira, no lugar de Agrafonte, em Tibães, aos moradores que o solicitassem.
Vivendo na cidade, deslocava-se três vezes por semana a Tibães, às segundas, quartas e sextas, para a Casa do Rasteira, onde descansava. Numa destas viagens, que eram sempre feitas a pé, foi colhido mortalmente por uma lambreta.




PADRE JOSÉ PEIXOTO DE OLIVEIRA (ZEZÃO)

Era irmão do meu bisavô. Nasceu em 11 de Novembro de 1878, na Rua de Baixo, em Frossos. Foi baptizado pelo Padre Francisco José Pereira, em 13 de Novembro de 1878 e faleceu em 6 de Abril de 1957.
Filho legítimo de João José Peixoto de Oliveira, Padeiro e de Maria Duarte. Neto paterno de Domingos José de Oliveira e de Mariana Peixoto e materno de Domingos Alves e de Francisca Duarte.
Pediu a Inquirição de Génere, no 2.º ano de Teologia, em 17 de Novembro de 1898. Ordenou-se sacerdote em 1896, tendo celebrado as Bodas de Ouro, em 28 de Julho de 1946.
Foi pároco de Martim, Encourados e S. Romão de Milhazes ( a partir de 1905) do Concelho de Barcelos.
Era considerado um bom professor de Português, no Colégio de S. Quitéria, em Felgueiras, onde leccionou. Numa carta de recomendação, o Director de Colégio escrevia: «Se quiserem um bom professor de Português, contratem-no, por que melhor não encontram».
Era igualmente um grande poeta, orador e político. Escreveu no Jornal «Dumiense» muitos versos contra a política de então. Assinava por Zezão e tinha uma coluna intitulada «Bichas e Foguetes». Este Jornal, no suplemento ao número 35, ano II, de 17 de Maio de 1905, traça um perfil, incluindo uma foto, do Padre José Peixoto de Oliveira.
Era, igualmente, um monárquico. Teve de refugiar-se contra alguns juízes influentes de Barcelos que lhe fizeram a vida dura.




PADRES DE TIBÃES

Costuma-se dizer que as sementes germinam em boa terra. Talvez por influência dos beneditinos em Tibães, o que é certo é que esta freguesia gerou muitos sacerdotes e freiras à sombra do Mosteiro de Tibães.
A minha família conta com três consagrados: Padre José Peixoto de Oliveira, a Irmã Maria dos Anjos que faleceu em Fall River nos Estados Unidos e Frei António José da Costa ou Frei João de S. Miguel, da Ordem Franciscana, falecido em 11 de Dezembro de 1888 em Frossos.
Da minha aldeia também são vários os que subiram ao altar: Padre Boaventura José Rodrigues, Padre Severino Pereira Fernandes (nasceu em Tibães em 10-03-1933, missa nova em 19-07-1959, Coadjutor da paróquia de Prado desde Outubro de 1960 até 1968 e pároco desde essa data até aos nossos dias), Padre João Cardoso de Oliveira (Pároco da Areosa, Viana do Castelo), Padre António Esteves, Padre Zeferino Esteves, Padre Delfim Coelho.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A NOSSA IDENTIDADE - O TI-ZÉ-DA-AURORA

Há dias em que não conseguimos definir o que sentimos. Se fôssemos capazes de dar um nome a essas coisas não mergulharíamos em situações de vazio. Outras vezes é necessário andar muito tempo para trás até descobrirmos a essência da nossa identidade.
Naquele dia do aniversário dos meus sete anos, desaparecia o Ti-Zé-da­-Aurora, cuja auréola iria permanecer indelevelmente gravada, para sempre, no meu coração.
O meu avô era de estatura alta, franzino, sorriso escondido sob um bigodinho característico da família. Nele as rugas não assentaram arraiais, os cabelos nunca conheceram um tom esbranquiçado e os ossos nunca resmungaram. Nunca sentiu o peso dos anos, nem chegou a conhecer momentos de isolamento e de dependência, pois deixou-nos na aurora da vida.
De modo repentino, aquela força da juventude diluiu-se fisicamente no quotidiano das nossas vidas, deixando uma marca de dor e saudade. Não houve oportunidade para partilhar a sua sabedoria e a experiência acumulada.
Como te revejo pela entrega a certas causas com um brilho nos olhos e uma doçura na palavra!
Quantas histórias ficaram por contar! Quantos passeios ficaram por dar! Quando regressavas da Fábrica de Ruães e, depois de enganares o estômago, era ver-te com uma mão agarrada à enxada que levavas ao ombro, pelo Campo de Seixido abaixo, e a outra segurando ternamente o neto.
Aquela figura mágica, o avô mítico das histórias de encantar, não chegou a ser idoso. Não conheceu reforma, nem o estatuto penoso do reformado, não bateu cartas na banca improvisada do jardim, não chegou a envelhecer, nunca aprendeu a conjugar a expressão «ser velho», nunca deu mostras das «maleitas da idade», não contou com todo o tempo do mundo para conviver com os netos - alguns não chegou a conhecer - e com os amigos da «caça».
Não houve tempo para estabelecermos cumplicidades estimuladoras. Ficaram olhares, carinhos, sorrisos, recordações que enchem o tempo de saudade.
Em todas as crianças há um tempo, um espaço e um ser, mas tu desapareceste antes do meu tempo se cumprir e do meu ser se realizar. Se voltasses sorririas, por baixo do teu bigodinho, pois verias como cresci na tua ausência.
Será que quando nos entregamos à memória, aquele emaranhado de emoções a que não conseguimos dar nomes, será que estamos pura e simplesmente a analisar caminhos e influências?
Quando me entrego a certos pensamentos, recordo o teu olhar doce ao admirares os meus primeiros sarrabiscos e as minhas primeiras letras. Como sinto as tuas mãos calejadas do trabalho do campo e da labuta da fábrica ao afagares o rosto do neto mais velho. Como te enchia de vida e de entusiasmo o meu regresso às segundas-feiras. Os fins de semana eram uma eternidade.
Ai, se conseguisse agarrar as palavras que passam cá dentro! Se Ihes deito as mãos desabafarei que foste o melhor avô do mundo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Família Peixoto de Tibães

1-Antónia Peixota, n. S. Paio de Merelim em 17/6/1703. Casada com Gonçalo Coelho, n. S. Paio de Merelim.
2- Bernardo José Coelho, n. S. Paio de Marelim, Couto de Tibães, em 8/11/1728. Casado com Angelica Peixoto, n. Palmeira.
3- Angélica Teresa Peixoto, n. em 24/5/1769, no Lugar da Estrada, em S. Paio de Merelim. Casada com Alexandre José de Oliveira, n. S. Julião da Lage, em 15/5/1764 no Lugar da Boca.
4- Domingos José de Oliveira, n. em S. Paio de Merelim, no Lugar da Estrada, em 16/5/1806. Casado com Mariana Teresa Peixoto, n. em 21/10/1816, na Rua de Cima em Frossos. f. em 13/7/1894.
5- João José Peixoto, n. 22/9/1836 em S. Paio de Merelim. Casou em 22/7/1867 com Maria Duarte, n. 22/4/1842 em Frossos. f. 3/2/1917.
6- António José Peixoto de Oliveira. Faleceu com 79 anos. Teve vários irmãos: Maria dos Anjos, freira, faleceu em Fall River nos USA; Padre José Peixoto de Oliveira, n. 11/11/1878 em Frossos,
Pároco de Martim, Encourados e Milhazes do concelho de Barcelos, Professor no Colégio de S.ta Quitéria; Maria da Conceição Duarte, solteira, faleceu com 80 anos; Francisco Peixoto Duarte, f. em 18/3/1926 com 58 anos, casado com Maria Rosa Alves faleceu com 90 anos.
7- José Peixoto de Oliveira. n. 23/2/1903 em Frossos. Casado com Teresa da Conceição.
8- António José Peixoto de Oliveira, n. 22/4/1925. Casado com Maria Gonçalves, n. 26/3/1926.
9- José Carlos Gonçalves Peixoto (n. 21/05/1950), casado comTeresa da Silva Fernandes Peixoto n. em 08/03/1951.
10- Carlos Daniel Fernandes Peixoto (N. 19/2/1983) e Pedro Filipe Fernandes Peixoto (n. em 27/11/1974), casado com Teresa Celeste Araújo Veiga em 4 de Outubro de 2003.
11- José Pedro Veiga Peixoto (n. a 21/09/2004) e Ana Teresa Veiga Peixoto (n. a 13/4/2008).

terça-feira, 27 de maio de 2008

«O Mocho» De Tibães e « O Problema de Deus » (7)

Outro livro repetidamente lido foi O Problema de Deus de Diamantino Martins, Sacerdote Jesuíta, editado pela extinta Livraria Cruz de Braga em 1956.
António Gonçalves inicia os seus comentários a este livro pelo prólogo, pois o autor refere «este livro, embora perigoso, pode ser lido por todos». Comenta o habitante de Tibães: segundo um velho ditado, presunção e água benta, cada qual toma a que quer… não nos mete medo este perigo, o que de facto desejamos é encontrar Deus, sem lhe poder fugir.
Em minha opinião, António Gonçalves faz, nas margens deste livro, observações muito profundas. Segundo António Gonçalves o Génesis diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e Cristo ao ensinar-nos que Deus é o nosso supremo Pai, o «único» a quem devemos dirigir as nossas orações, dão testemunho de que existe entre Deus e o Homem um inegável parentesco espiritual, uma verdadeira afinidade entre o Criador e a Criatura. Ainda no prólogo faz outros comentários: substitui a expressão «há-de vir a cair um dia» por «poderá vir a cair um dia» e acrescenta à frase de Diamantino Martins «é um mistério incompreensível a passagem do finito para o infinito», nem o infinito pode caber no finito, nem Deus pode caber nas premissas de um silogismo. Mais à frente Dimantino Martins escreve «Deus oculta-SE», reage A. Gonçalves desta maneira: se Deus se oculta, como podemos encontrá-lo? Não será possível iludirmo-nos, quando pensamos falar-lhe? Não. Pelo contrário, Deus revela-se misteriosamente à humanidade e é dessa revelação confusa que procedem as religiões. Corrige algumas palavras do autor: controle por comprovação e, logo a seguir, necessariamente por habitualmente.
Quando no livro se lê «Tudo vem de Deus, tudo vai para Deus» ele aprofunda «tudo vem do Nada pela vontade criadora de Deus. O que for desnecessário ao desígnio divino, ao Nada voltará. Só terá a vida eterna quem amar a Deus sobre todas as coisas e cumprir como puder a vontade divina».
Relativamente ao último parágrafo do prólogo, escreve que embora haja aqui exagero, é certo que o conhecimento, implicando uma assimilação espiritual, aumenta e transfigura o ser que conhece e assimila.
Quando na página 61 se lê «Como Deus é a causa do Universo…», ele observa: Deus, causa do universo, é uma maneira de falar. Há um nexo de necessidade entre a causa e o efeito. Ora o Universo é contingente; e, se existe é somente por vontade graciosa de Deus. Em vez de dizermos que Deus é causa do Universo, melhor será dizermos que Ele é o criador e conservador da natureza, que só existe pela sua graça e pela sua vontade.
A cultura vasta de António Gonçalves permite-lhe todos os relacionamentos. Quando na página 64, Diamantino Martins exprime «Tudo se tornava compreensível para o pequenito…», , ele aconselha a ler a Teoria do Conhecimento de J. Hessen, página 107. Quando na página 70, Diamantino Martins alude a Paul Claudel, António Gonçalves acrescenta que Claudel rendeu-se ao catolicismo pelo coração antes de se render pelo intelecto.
Na página 81, Comenta duas afirmações:«Deus, termo lógico de um silogismo existencial…dois problemas fundamentais temos de separar, aceitação e justificação». Relativamente à primeira afirmação, conhecer a existência de Deus mediante um silogismo não equivale a conhecê-lo intuitiva e imediatamente como presença pessoal? A escolástica medieval fazia da fé em Deus a premissa maior de muitos silogismos que aceitavam como certa a existência de Deus. A filosofia moderna é mais escrupulosa nesses pontos. Quanto à segunda, vemos o mundo e vemos o nosso corpo, mas a Deus não o vemos… Só as almas ingénuas podem aceitar directamente a existência de Deus, sem qualquer intervenção do próprio entendimento.
A propósito da afirmação de Diamantino Martins, na página 84, «Ao instituirmos a reflexão filosófica encontramo-nos com o outro em nós, com o Mundo e com Deus». Questiona A. Gonçalves, quem é esse «outro» com quem nos enconramos, a não ser o género humano? Ninguém jamais viu a face de Deus. Quando tão altos espíritos coo Santo Agostinho e Unamuno proclamam a sua fome de Deus, é legítimo duvidar de que deveras O tenham encontrado. Se o tivessem encontrado, sentir-se-iam saciados.

domingo, 18 de maio de 2008

«O Mocho» de Tibães e «António Sérgio» (6)

Outro livro absorvido, sublinhado e comentado pelo Sr. António Gonçalves «O Mocho» foi Confissões de um Cooperativista de António Sérgio, editorial inquérito, datado de 1948.
Quando António Sérgio, na página 11, do livro citado, refere a supressão da guerra para a conquista da côdea e o advento de uma democracia que não há-de ser fictícia, António Gonçalves concorda com ambas as afirmações, em tempo de ditadura, pois segundo ele não deveria ser necessária a guerra para a conquista do pão de cada dia e reafirma o seu sim a uma democracia não fictícia, pois as actuais são fictícias. Portugal, fiel à sua história, não pode desinteressar-se de nada do que se passa no universo.
Quando na página 17, António Sérgio afirma « é dever nosso tratarmos a natureza humana … como um fim em si mesmo», António Gonçalves não podia estar mais de acordo, pois o Homem deve ser considerado como um fim em si mesmo e não como um meio, se não queremos cair na mais hedionda das tiranias, a tirania totalitária, que despe dos seus direitos humanos o cidadão, para fazer dele, apenas, uma máquina ao serviço do Estado Omnipotente.
Elogia António Sérgio por sublinhar o lado concreto dos problemas e acredita que o cooperativismo integral de produção e de consumo constituiria a resposta natural aos males do capitalismo e do comunismo. O cooperativismo deveria ser um complemento da economia actual e nele o Estado deveria exercer um papel de colaboração e de coordenação, deveria ser o cérebro federador dos cooperatistas (António Gonçalves prefere o termo cooperatista a cooperativista), excluir o Estado da organização cooperativa seria uma aventura destinada ao malogro.
Não concorda com António Sérgio em algumas das suas afirmações: página 31, quando diz «tudo é provisório na evolução do mundo … o socialismo de estado é uma solução passageira em relação ao socialismo cooperativista» e chega a corrigir o seu português, quando substitui «mais bem» por melhor, na página 27.
António Gonçalves tem uma reacção veemente e hilariante em relação a observações que António Sérgio produz na página 13 «o rumo geral que têm tomado as coisas no maior país socialista do mundo pode servir de apoio ao que estou dizendo… na União das Repúblicas Socialistas, a pesca é inteiramente cooperativa, e não do Estado; e a Agricultura, hoje em dia, é quase inteiramente cooperativa, realizada por sociedades que se nomeiam colcozes…». Responde «o Mocho»: merda e mais merda, António Sérgio está muito pouco informado do que se passa na Rússia, fala-nos dum suposto cooperativismo soviético com uma ingenuidade que faz rir. Então não pode haver cooperativismo sem passar por Moscovo?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Tibães perde um dos habitantes ilustres


Bateu, no dia 14 de Maio de 2008, à porta do Senhor, um sacerdote que viveu grande parte da sua vida na freguesia de Mire de Tibães, o Padre David José Antunes.
Era um Padre do Povo, que viveu com o povo e para o Povo do Senhor.
Possuía uma memória prodigiosa. Qualidade que era reconhecida por todos quantos privaram com ele.
Cultivou sempre a simplicidade. Nunca deixou o hábito, o fato preto; nunca adquiriu uma viatura; andou sempre nos transportes públicos e misturava-se com os trabalhadores.
Nasceu a 6 de Janeiro de 1912 na freguesia de Pedralva. Ordenado sacerdote a 11 de Julho de 1937. Pároco de Semelhe e Gondizalves de 1937 a 1947. Pároco de Mire de Tibães de 1947 a 1967. Pároco de S. Mamede de Este de 1967 a 1987.
A partir de 1987, optou por viver na freguesia de Mire de Tibães, na casa de uma sobrinha, onde viria a falecer em 14 de Maio de 2008. Jaz sepultado, igualmente, nesta freguesia.

domingo, 30 de março de 2008

«MOCHO» DE TIBÃES, O «POETA» (5)

Quando regressava diariamente da cidade, a pé, depois de catorze quilómetros percorridos (ida e regresso), era abordado à entrada da aldeia pelos miúdos que lhe pediam: «Sr. Gonçalves queremos uma poesia?». Na hora e, de improviso, soltava alguns versos que enchiam de satisfação a rapaziada. Terminada a sessão dispersavam e o Sr. Gonçalves lá se dirigia para casa enfarinhar-se nos livros.
A prosa, modo de apresentar uma arquitectura do próprio pensamento, pode ser uma forma de poesia horizontal. Por sua vez, a forma curta de métrica poética, representaria uma nova forma de libertação da poesia, ou seja, António Gonçalves estava consciente da dicotomia entre poesia e prosa poética e exemplifica:
Um par de noivos,
Num carreiro escuro,
Ambos agarrados,
Como a hera ao muro.
Sente-se em António Gonçalves uma angústia existencial, uma busca ontológica da providência. Isso é evidente na sua poesia:
Enquanto meus olhos, num rezar ausente
Tristemente pousam numa sombra em cruz…
Uivos, alarido, silvos de serpente,
É Satam que passa em seu domínio ardente
Meu achar doente, sem achar Deus.
Mal fujo aturdido deste antro de treva,
Lá vem nova leva de escravos sem luz,
Vagamente buscam na distância a cruz.
Os habitantes da freguesia conhecem-no, fundamentalmente, por ser um poeta popular, que tinha sempre uma estrofe na ponta da língua:
Eia, pois, avante,
Santo Coração…
Porque a vida é «sim»,
porque a morte é «não».
Estes artigos foram possíveis pela amabilidade do Sr. Avelino Ribeiro da Silva por nos ter disponibilizado algum do seu espólio. O nosso reconhecido agradecimento.

quarta-feira, 26 de março de 2008

MESTRE CASAIS

António Fernandes da Silva, N. 10-04-1924, F. 14-11-2006. Casado em com Conceição da Silva Gomes, N. 12-06-1924. António Fernandes da Silva também conhecido por Mestre Casais, à semelhança do seu progenitor. O nome «Casais» não figura em nenhum nome próprio dos seus antepassados. Já a sua Trisavó, Maria Rosa da Cunha era, igualmente, conhecida por Maria Casais, como se pode constatar pelo Assento de Baptismo (a seguir) de Maria (Teresa) da Silva, mãe de José Gonçalves da Silva. Certidão onde aparece pela primeira vez o nome «Casais».
«Casais» terá origem na profissão dos antepassados de António Fernandes da Silva. Muitos deles foram rendeiros de terras pertencentes aos Beneditinos de Tibães. Esses rendeiros eram vulgarmente designados por «Casales». Que daria, posteriormente, e, por evolução da língua, origem ao nome «Casais». Este facto é, igualmente, constatável em localidades próximas de comunidades conventuais. António Fernandes da Silva era filho de:


José Gonçalves da Silva, N. 26-4-1901, F. 14-12-1998. Casado em 30-3-1923 com Deolinda G. Fernandes, N. 11-8-1873, F. 4-3-1956. José Gonçalves da Silva era filho de:


António José Gonçalves (da Silva), N. 7-8-1858, em Tibães, Prof. Ferreiro. Casou em 14-5-1883, em Tibães, com Maria (Teresa) da Silva, N. 26-7-1862, prof. Jornaleira. Sepultada na Campa 11 dos Claustros do Convento. Filha de:


José Ferreira da Silva e Inácia da Cunha, N. 16-8-1832, em Padim da Graça, prof. contratadeira de pano. Filha de:


Maria Casais ou Maria Rosa da Cunha, N. 10-3-1796, em Padim da Graça. Casada em 18-12-1823 com António José da Cunha, N. 16-3-1795. Filho de:


Ana (Maria) Gonçalves, N. 3-6-1765. Casada, em 16-6-1791, com Manuel José da Cunha, N. 12-5-1769. Filho de:


Feliciano Francisco Pereira, F. 11-12-1824. Casado, em 18-3-1774, com Teodósia Francisca da Cunha, N. 11-12-1747, F. 23-5-1824. Filha de:


Ana Francisca, N. 27-3-1711, F. 1-2-1787. Casada com António da Cunha, N. 29-12-1717, F. 12-6-1801. Filho de:


João Vieira e de Gertrudes da Cunha, F. 5-6-1724. Filha de:


João Osório da Cunha, F. 12-3-1708, Casado em 30-5-1698 com Mariana Ferreira, baptizada em 4-9-1678.

terça-feira, 25 de março de 2008

O «MOCHO», FILÓSOFO E HOMEM DE FÉ (4)

«Mocho» era alcunha de António Gonçalves. Na sua casa havia, mesmo, um mocho em bronze no interior de um nicho.
Sobre a Ciência tinha uma perspectiva interessante. Para ele, a Ciência brinca com as ideias, como as crianças brincam com as areias na praia. A Ciência, em seu entender, é irmã gémea da arte, ou, como dizia Platão, a beleza é o resplendor da verdade.
Como foi em artigo anterior, embora não frequentasse a Igreja era, no entanto, um homem de fé.
Quando B. Kuznetsov comenta a vida privada de Einstein, recordando que era um espírito continuamente activo pois nem mesmo às horas da refeição descansava, por esta razão o seu casamento começou a desmoronar-se e o desacordo com Mileva intensificou-se. Sobre esta atitude de Einstein, António Gonçalves, escreve que isto lhe faz lembrar Bertrand Russell e vai mais longe: «tal, como eu, dificuldades matrimoniais … Que me sirva de consolação…».
Na sua ilustrada biblioteca figuravam os dois volumes de B. Kuznetsov sobre Albert Einstein. Nos comentários que produziu nas margens destes livros, podemos sintetizar as suas ideias:
- a consciência da humanidade que a base das religiões superiores expressas nas várias civilizações revela a cada passo a sua origem divina;
- Cristo é o símbolo da fusão de Deus e da humanidade;
- era preciso «canonizar» o materialismo;
- nem espaço, nem tempo, nem causalidade são materialidades puras, mas são provavelmente atributos da omnipotência divina, criadora do universo e das leis que o regem;
- o espaço e o tempo não podem adicionar-se, por serem categorias de natureza distinta: o espaço do mundo é finito; mas o tempo é infinito;
- o critério Einsteineano de «perfeição interna» e de «confirmação externa» são equivalentes à revelação transcendental de origem divina;
- a fé íntima de Einstein na harmonia de um mundo cognoscível era uma fonte das intuições internas, que lhe alimentaram o espírito.
Os seus comentários aos dois volumes de Kuznetsov sobre Albert Einstein terminam com uma afirmação surpreendente: «o erro de Einstein consiste fundamentalmente em atribuir ao espaço e ao tempo uma estrutura atómica, como se houvesse átomos de espaço ou átomos de tempo. É aqui que naufragam as teorias da relatividade de Einstein e o seu princípio da causalidade».
Outro livro objecto da sua análise, era da autoria de João Ameal intitulado São Tomaz de Aquino. Também aqui abundam as suas proposições:
- a inteligência busca a presença da causa em tudo, excepto em Deus, mas Deus não podia ser nosso Pai, se Cristo não fosse nosso irmão desde a eternidade;
- é provável que a razão humana seja uma revelação natural do criador;
- maior e menor são termos relativos às coisas extensas, isto é, a coisas existentes no espaço.
Deus não é maior nem menor, porque não é extenso nem existe no espaço nem no tempo, como a natureza, mas é eterno e imenso, isto é, preexistente ao espaço e ao tempo;
- enquanto a natureza, ou Universo, não foi criada, embora já existisse no projecto divino, faltava-lhe a perfeição da realidade objectiva;
- não nos é vedado, em absoluto, o conhecimento da essência de Deus, visto que sabemos que é essencialmente activo, criador, eterno e imutável, etc, o que já não é pouco e nos prepara para um conhecimento melhor;
- a propósito da expressão «primeiro motor imóvel» de São Tomaz de Aquino, argumenta que não gosta da designação de «motor» aplicada a Deus. Deus não é motor de qualquer tipo preexistente da matéria, mas sim Criador do Universo a partir do zero… é da omnipotência divina que dimana a potência e o acto de criar o universo, a partir do zero;
- para António Gonçalves é inequívoca a expressão «Deus existe na eternidade». Não há nenhuma eternidade distinta de Deus. Deus é que tem necessariamente o atributo da eternidade;
- se houvesse vários Deuses, nenhum deles seria infinito… e nenhum deles seria Deus;
- comentando a solução dos maniqueus, adianta que sem a experiência do bem e do mal, não haveria consciência humana, nem humana liberdade.
Quando comenta uma expressão que vem no livro Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Percepção, textos estabelecidos e prefaciados por Jacinto Prado Coelho e Georg Rudolf Lind, «Regresso aos Deuses», ele comenta: ao contrário, comungo com Erasmo no Regresso a Cristo».

segunda-feira, 10 de março de 2008

ANTÓNIO GONÇALVES - «O MOCHO» (3)

ANTÓNIO GONÇALVES - «O MOCHO» (3)
António Gonçalves frequentou Direito em Coimbra. Quando faz uma abordagem ao livro O Homem esse desconhecido, de Alexis Carrel, (ed. Educação Nacional, Porto, 1942), afirma, a deformação profissional é evidente nos advogados, outro erro dos advogados é suprimir do inventário uma parte da realidade.
No que toca a Coimbra, Fidelino de Figueiredo na História Literária de Portugal (1944), cita o livro Murmúrios de Couto Monteiro, popular autor de Cabulogia, pretexto para António Gonçalves «O Mocho» expressar-se: «muitos dos poetas Coimbrãos, formados em cabulogia, pagaram tributo honroso à nossa literatura e à nossa arte. A sua sabedoria foi, por vezes, fecunda».
Outro Livro História da Ciência de William Cecil Dampier foi objecto de uma análise profunda de António Gonçalves. Começou esta análise pela afirmação «a aplicação do cálculo matemático às mais altas Ciências da Natureza por sábios como Newton e Einstein, dá razão aos inspirados fundadores da escola pitagórica. Sem tal cálculo não pode haver medida e a medida é o primeiro requisito da ciência». Relativamente à descontinuidade do tempo, levantada na pág. 28, do citado livro, expõe: «se o tempo não é nada substancialmente, mas é a medida do movimento, o “quantum” de acção conduz-nos à descontinuidade do movimento e consequentemente à descontinuidade do tempo». Segundo ele, da teoria de Demócrito deriva o materialismo clássico, de que o materialismo dialéctico é derivado. Há uma única maneira de refutar qualquer materialismo, é demonstrar que a matéria não é eterna e foi criada, dando origem ao tempo, como com os acontecimentos em que a matéria intervém.
O espaço e o tempo, na opinião de A. Gonçalves, não são propriedades da matéria, são propriedades do pensamento, sem as quais o Homem não pode pensar.
A propósito de uma afirmação de Newton que Deus é imanente na natureza, ele contra-argumenta, creio que é a Natureza que está imanente em Deus.
A propósito da filosofia evolucionista, comenta: «a sobrevivência do mais apto? E quando os mais aptos, em vez de buscarem sobreviver, lutam até à morte em defesa da Pátria e daqueles que amam? Há até animais que sacrificam a vida por aqueles que amam…» e acrescenta «a Teoria da Evolução pretende ser uma explicação geral do desenvolvimento da vida na terra, mas não sabe como a vida começou… e esse mistério das origens leva-nos inevitavelmente até Deus».

domingo, 9 de março de 2008

ANTÓNIO GONÇALVES - «O MOCHO» (2)


Era um católico, crente em Deus, mas não praticante. Recebia sempre o compasso em sua casa, pela Páscoa, reservando sempre algum tempo para junto do pároco lhe indicar ou ler alguma passagem de um dos seus livros.
Tinha uma caligrafia bonita e uma escrita fluente, própria de quem domina os assuntos.
Nas Confissões de Santo Agostinho, anotou ele na contracapa do livro: «S.to Agostinho nasceu em Tagaste, na África do Norte, no ano de 354 e foi baptizado aos 33 anos de idade por S.to Ambrósio, então Bispo de Milão. Morreu em 420, como Bispo de Hipona, cuja sede ocupou durante 25 anos.
Foi uma alma muito penetrante por vezes, mas também foi contraditório e falho de serenidade. A ele se devem estas frases: - Não acreditaria nos Evangelhos se não mo ordenasse a autoridade da Igreja Católica …; Fora da Igreja não hà salvação…
As dificuldades de Santo Agostinho quanto á criação ex nihilo são evidentes nos livros onze e doze. Entretanto, como a criação ex nihilo faz parte do Credo de Nicéia, obrigatório na Igreja desde o ano da graça de 325, o Bispo de Hipona aceita ex professo a criação do mundo a partir do nada», ou seja, quando S.to Agostinho diz «Do nada, pois, Senhor, fizestes o céu e a terra», é, na opinião do «Mocho» , para não incorrer no anátema da igreja que, no Concílio de Niceia, formulara o dogma da criação ex nihilo.
No Livro décimo, ponto 12, A Memória e as Matemáticas, escreve S.to Agostinho: « Mas os números são uma coisa e as ideias que exprimem, outra». Relativamente ao pensamento de S.to Agostinho contrapõe o «Mocho» de Tibães: «As ideias que exprimem os números são abstracções algébricas. Embora as ideias matemáticas sejam abstractas elaborações do entendimento, parece muito provável que elas derivam de sensações concretas dos números, como diz William Dampier na sua História da Ciência: « Para nós, o conceito de número é-nos familiar».
No Livro onze, ponto 15, As três divisões do tempo, escreve, igualmente, S.to Agostinho: «Logo o tempo presente não tem nenhuma extensão». Acrescenta António Gonçalves, «o Mocho» de Tibães: «O mesmo acontece ao ponto geométrico, é inextenso». Mais à frente esclarece o seu pensamento: «se o presente não tem extensão, também a não tem, nem o passado nem o futuro, o passado já foi presente e o futuro há-de sê-lo. Mas será assim? O ponto geométrico é inextenso e, no entanto, a linha e a superfície já são extensas».
Também no Livro onze, ponto 24, O Tempo não é o Movimento dos Corpos, Escreve S.to Agostinho: «Portanto sendo diferentes o movimento do corpo e a medida da duração do movimento, quem não vê qual destas duas coisas se deve chamar tempo?» Responde o Sr. Gonçalves: «O tempo é a meu ver um reflexo da eternidade. Se a matéria e a energia se conservam, porque não há-de conservar-se o espírito, assegurando-nos o acesso à vida eterna? Os materialistas, positivistas, ou relativistas consideram o tempo, o espaço e a vida, como propriedades da matéria, no que se enganam. Dizer que o espaço é propriedade dos objectos que o ocupam é dizer que o mar é propriedade dos peixes».
Para rematar o livro Onze de S.to Agostinho, o «Mocho» desenvolve o seu pensamento: «É verosímil que antes da criação da matéria, do tempo e do espaço, Deus criasse os seres espirituais. Orígenes, que Augusto Messer (História da Filosofia) apresenta como o maior sábio da sua época, ensinava que a criação do mundo foi feita a partir da eternidade, como a geração de Cristo, porque o poder e a bondade de Deus não poderiam existir sem um mundo onde se manifestassem. De acordo com isto, Orígenes, acredita na preexistência das almas».
Relativamente ao Livro doze, capítulo 6, O Conceito de Matéria, S. Agostinho concebia um meio termo entre a forma e o nada, que não fosse nem forma nem nada, mas um ser informe próximo do não-ser. António Gonçalves acrescenta esta nota, a distinção entre o nada absoluto e o nada relativo é artificial. O nada é nada, por abstracção de tudo, embora seja impensável.
Nesta análise, António Gonçalves deixa transparecer, por fim, o seu pensamento: « eu até creio na supereternidade do criador…; Acaso, possibilidades, probabilidades, futuridades, tudo foi criado por Deus.




ANTÓNIO GONÇALVES - «O MOCHO» (1)

António Gonçalves nasceu a 19 de Maio de 1883 e faleceu a 8 de Janeiro de 1972, mais conhecido na aldeia pela alcunha «o mocho».
Donde viria essa alcunha? Com certeza da sua erudição filosófica, científica e jurídica.
Chegou a frequentar a Universidade de Coimbra em Direito.
Pessoa muito viajada e cosmopolita. Em 1925 atravessava as águas do Atlântico.
O homicídio do seu irmão Manuel Gonçalves, em 5 de Março de 1924, é pretexto para a sua obra Psicologia de um processo-crime, editada nas Oficinas de O Commercio do Porto, em 1925.
Apesar da sua erudição, tornou-se uma personalidade típica da freguesia, agricultor e de trato fácil para a população.
Diariamente, dirigia-se a pé, à cidade, regressando, sempre, com o jornal debaixo do braço e sempre com uma palavra ou um poema, de improviso, para aquele que o abeirava.
Tive o privilégio de o conhecer e de privar com ele, na minha adolescência. Notava que ele via em mim, um dos poucos habitantes capazes de aguentar uma conversa filosófica, um debate científico. Em sua casa, não havia mais espaço para livros. Na sala de entrada, após ultrapassar umas íngremes escadas em pedra, deparávamos com estantes repletas de livros até ao tecto.
Quando o assunto despertava, ele tinha sempre o livro certo para me indicar. Não me esqueço que os seus livros estavam muito anotados e quase sempre com referências a discordar do autor.